quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A BIBLIOTECA ITINERANTE DE MIRANDA DO CORVO

O início das Bibliotecas Itinerantes

A primeira Biblioteca Itinerante. Começou a circular
 em Cascais, em 1953.
Em 1958 existiam 84 bibliotecas municipais, mas a esmagadora maioria não era mais do que uma sala de leitura com escassa documentação. No entanto, é nesta década que surge em Portugal a primeira biblioteca móvel moderna, inovação que se deve a António José Branquinho da Fonseca, escritor e conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais. Na verdade, em 1953, já circulava um carro-biblioteca ou biblioteca-circulante que se desloca até às associações, escolas e lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo domiciliário, o acesso ao livro pela população.

Ainda em 1958, baseado na experiência pioneira de Branquinho da Fonseca e sob a sua direcção, foi criado pela Fundação Calouste Gulbenkian (F.C.G.), instituição privada, o Serviço de Bibliotecas Itinerantes, com o intuito de tentar resolver um problema: o da educação pós-escolar dos cidadãos, visto que, quando «o homem não procura o livro» ou «não se interessa pelo livro», tem de ser este a «procurar e interessar o homem, para o servir, quer instruindo-o, quer recreando-o».

Assim, o objectivo essencial era promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço. Estas bibliotecas constituíram durante muitos anos a única possibilidade de acesso ao livro a diversas faixas etárias e sociais da população, particularmente do interior.

Nesta fase foram criadas 15 bibliotecas itinerantes, número que rapidamente se multiplicou, pelo que em 1961 o país era invadido por uma frota cinzenta de 47 veículos de marca Citröen. Muitos portugueses viram, então, um livro pela primeira vez!

Referência bibliográfica:
Bibliotecas em movimento: as bibliotecas móveis em Portugal
Autor: Rui Manuel Neves
Chefe de Divisão de Bibliotecas - Biblioteca Pública Municipal de Montijo, Portugal.
Coordenador do Grupo de Trabalho de Bibliotecas Públicas da BAD
(Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas).
Presidente da Direcção da LIBERPOLIS.


A Biblioteca Itinerante Nº 18

A saudosa Citröen que durante muitos anos, circulou nas estradas do
concelho de Miranda do Corvo e concelhos vizinhos.


Na já longínqua tarde de 10 de Setembro de 1959, uma carrinha, com livros para emprestar, parou no pacato largo da feira, hoje praça José Falcão, em Miranda do Corvo. O espanto foi enorme. Num país onde a leitura não era um hábito e onde existia uma elevada taxa de analfabetismo, muitos aderiram ao fascínio de ir à Biblioteca. Iniciava então a sua actividade a Biblioteca Itinerante nº 18 da Fundação Calouste Gulbenkian, cujo raio de acção se alargou a dezenas de localidades do concelho de Miranda e dos municípios limítrofes.  Durante décadas foi o maior e por vezes o único contributo válido para as populações que visitava pudessem ter acesso à cultura…


O sr. António Ferreira, mais conhecido pelo sr. António da Biblioteca e o sr. Prof. Seixas,
formavam a equipa da Biblioteca Itinerante nº 18.

Nos anos 60, a Biblioteca Itinerante de Miranda estacionava às quintas-feiras, à tarde, de 15 em 15 dias, junto à Câmara Municipal. Nessa época a afluência de leitores era imensa e por vezes era preciso esperar largos minutos para que fosse dada ordem de entrada na carrinha. Espera angustiante essa…

                                             

O espaço exíguo da carrinha não era problema quando se gostava de ler.
 E a leitura era iniciada logo ali, à sombra de uma árvore...


O senhor António era o motorista da carrinha. Era ele que afavelmente recebia, pela janela da carrinha, os livros que os leitores iam entregar, juntamente com o cartão de registo. No interior da pequena biblioteca o senhor professor Seixas arrumava os livros nas estantes, folheando um por outro. Também conversava com os leitores e dava indicações e conselhos sobre o que era melhor para cada um ler, segundo a sua idade. Os livros estavam catalogados e tinham fitas de cores verde, laranja e vermelha nas lombadas, sendo que as crianças apenas podiam requisitar os livros com a fita verde.

Naquela altura o número máximo de livros que se podiam requisitar era de cinco. Independentemente do número e do tamanho das páginas, ler cinco livros em quinze dias parece hoje uma tarefa homérica, mas, naquele tempo, os quinze dias pareciam uma eternidade, pois naquela altura lia-se muito e com gosto.

Entretanto, constatou-se que a existência das unidades móveis não era suficiente e que era igualmente necessária a implantação de unidades fixas. Foi assim que, na década de 80, a Fundação Calouste Gulbenkian dotou a vila de uma biblioteca fixa, biblioteca que funcionou durante alguns anos em instalações anexas à Segurança Social, antes de ser incorporada na atual Biblioteca Municipal Miguel Torga. Essa biblioteca chamou a si o serviço prestado na vila pela Biblioteca Itinerante, passando os leitores habituais da carrinha a requisitar os livros na biblioteca fixa.

Mas, a Biblioteca Itinerante nº 18 ainda continuou durante muito tempo na sua nobre missão de ir ao encontro dos leitores, até que foi integrada, a partir de Novembro de 2001, na Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional. A partir daqui a Biblioteca passou a ser designada por Bibliomóvel, mas a sua missão continuou a ser a mesma…



A Bibliomóvel da ADFP. Um nome e um veículo diferentes, a mesma missão...


10 de Setembro de 2009. “50 anos a alimentar o espírito”
“Durante décadas a Biblioteca Itinerante foi o maior e, por vezes, o único contributo válido para que as populações que visitava pudessem ter acesso à cultura”,  

O senhor António e  primeira carrinha da Biblioteca. O dr. Carlos Marta e o Bibliomóvel da ADFP. 
Dois veículos e duas gerações ao serviço da cultura.

A passagem dos cinquenta anos de vida da Biblioteca Itinerante, foi assinalada com uma exposição intitulada “50 anos a alimentar o espírito”. Essa exposição foi uma viagem pela história da Biblioteca, onde estiveram patentes algumas diretivas do Serviço, Boletins Informativos mais antigos e alguns livros “gastos” de tanto serem lidos e que talvez até nos tenham passado pelas mãos noutros tempos.  Nessa pequena viagem encontravam-se algumas curiosidades:   A circular nº 1, circular que determinava que alguns livros não estivessem à vista (devido ao seu conteúdo poder incomodar a Ditadura Salazarista).   Folhas de pedido de empréstimo de livros de estudo para quem tinha mais dificuldades económicas. A circular que previa a vacinação dos funcionários contra a gripe de Hong Kong.  Os primeiros livros do Noddy e do Pequenu. Livros escritos por leitores desta Biblioteca e  muitas fotografias de leitores de todas as idades.  Tratou-se de uma viagem ao passado da Biblioteca Itinerante de Miranda e de todos quantos a frequentaram e com ela aprenderam e/ou desenvolveram o gosto pela leitura.  

A Quinta dos Livros

A atual Biblioteca Móvel da ADFP.

No dia 19 de Maio de 2010, a ADFP inaugurou uma nova biblioteca móvel, designado por “Quinta dos Livros”. A biblioteca cria assim uma ligação à natureza e aos animais presentes na Quinta da Paiva e no Parque Biológico, coisas tão do agrado dos pequenos leitores.


Os anos passaram e as tecnologias evoluiram, mas, descontando as cores e o formato da carrinha,
 esta foto poderia ter sido tirada  no Largo da Feira, numa qualquer tarde de quinta-feira, meio século atrás. A mesma alegria de então. O mesmo fascínio pelos livros!

Como não podia deixar de ser a “Quinta dos Livros” acompanha também a evolução dos tempos, estando equipada com material informático, permitindo o acesso às novas tecnologias e estando também acessível a pessoas com mobilidade reduzida.

A Fundação ADFP tem também um pólo fixo na sede da instituição, aberto a toda a comunidade e possui um fundo bibliográfico de 30 mil livros. Actualmente com 2.700 leitores inscritos, visita escolas e infantários, fazendo igualmente paragens no centro das aldeias, permitindo que as populações de 62 localidades do distrito de Coimbra possam ter acesso gratuito ao livro. Para tal foram estabelecidos protocolos com as Câmaras Municipais de Coimbra, Góis, Miranda do Corvo e Penela, e ainda com as Juntas de Freguesia de Casal de Ermio e Serpins.

Quem disse que agora a Biblioteca só é
frequentada por crianças?...  
Trata-se de uma Biblioteca pró-activa com programas para todas as idades, tendo em 2004 lançado o programa “Ano Zero da Leitura” cujo objectivo é colocar os mais pequenos a “gatinhar” para o livro visitando Creches e Jardins de infância. Em 2010, implementou uma actividade semanal dirigida aos idosos, intitulada “No meu tempo é que era”, e que consiste na recolha e divulgação de vídeos, fotos e contos sobre actividades e profissões já extintas ou em vias de extinção, as quais fazem parte do imaginário deste grupo etário.

Miranda do Corvo e os concelhos vizinhos continuam assim, década após década, a ter à sua disposição o serviço da Biblioteca Itinerante. Os antigos leitores jamais se esquecerão da velhinha e saudosa Citroen que ostentava o nº 18; esse veículo mágico há muito tempo que desapareceu das estradas, mas, felizmente, deixou descendência e é muito bom saber que, volvidos 55 anos, a Biblioteca Itinerante de Miranda do Corvo continua em plena atividade!

Fonte consultada: Site da ADFP

Este artigo foi elaborado com a colaboração do dr. Carlos Marta, atual encarregado da Biblioteca da ADFP, que forneceu imagens e documentação.


Testemunhos de antigos leitores da Biblioteca de Miranda do Corvo, escritos pelos próprios e publicados no blog Candeia Verde:

Sentia-me feliz quando, de quinze em quinze dias, vestia a minha melhor roupa para ir à carrinha devolver os livros já lidos e escolher outros, envoltos em mistérios que iria desvendar até à próxima visita da biblioteca. Lembro-me que levava sempre o número máximo de livros permitido que, na altura, eram cinco. Tinha um enorme gosto pela leitura e “devorava” livros à noite, deitado na cama e iluminado pela pálida luz de um candeeiro de petróleo. Adorava os livros de Enid Blyton: “Os Cinco”, “Os Sete” ou “Uma Aventura”, cujas colecções li na totalidade. Também gostava muito dos livros de Júlio Verne e Emílio Salgari, mas, durante os anos que frequentei a biblioteca itinerante li obras de vários géneros e autores, atrevendo-me a dizer que terei certamente entrado na casa dos milhares de livros lidos.

A Biblioteca Itinerante de Miranda do Corvo teve um papel importante na minha aprendizagem, pelo que fico muito contente por saber que, após meio século, continua a ir ao encontro das pessoas transportando cultura, com todo o encanto e magia dos livros!
José Alexandre Henriques

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Gostei muito de ler o seu artigo... Posso dizer sem dúvida alguma que o que mais moldou o meu carácter… foram os meus hábitos de leitura…

Já dizia Marcus Tullius Cícero –“Se temos uma biblioteca e um jardim, temos tudo…”


Desde muito tenra idade… que sempre li muito… e muito me faz confusão, quando reparo que hoje se lê muito pouco… diria antes… quase nada… Mais… quando era novo… no tempo de Salazar e Caetano… queríamos alguns livros para ler… e não os tínhamos… pois eram censurados… E como nessa altura, o dinheiro era pouco ou nenhum, para comprar livros… eu e dezenas de colegas amigos … como aliás, a maioria dos jovens pelo País fora, tínhamos que recorrer a bibliotecas públicas… No meu caso, da que adquiri mais livros para ler, foi da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian em Miranda do Corvo… Nunca me esquecerei do que devo na formação do meu carácter, àquela velha carrinha… que me trazia, a maioria dos meus sonhos…


Foi sem dúvida graças a ela, que eu ganhei o gosto pela leitura… Não via o dia do mês, em que a carrinha chegava… para poder escolher mais cinco livros… que era o máximo que emprestavam por mês… E como o gosto que grande parte dos meus amigos e eu tínhamos por ler, era tal… que os cinco livros… quando muito davam para cinco dias apenas… e era quando davam… então começávamos a trocar os livros uns com os outros… e assim podíamos ler uma dúzia ou mais de livros no mesmo mês… E eu que lia… até com uma pilha por baixo dos lençóis, para a minha Mãe não ver a luz acesa até tão tarde… chegando a haver dias em que lia dois livros… Então, para ter mais que ler… durante um período, só trazia livros com dois ou mais volumes… pois contavam apenas como um… pena que o stock de títulos com mais de um volume, tenha acabado tão depressa… O professor Henrique ???, até chegou a desconfiar que eu levava livros que nem lia… pois era muito novo para os entender… foram as minhas primeiras noções de Literacia… aprendi que não bastava ler… era preciso interpretar e compreender o que se lia… Então no mês seguinte perguntava-me um resumo de algum deles… poucas vezes o fez… permitindo-me a partir daí, ter acesso a qualquer das prateleiras… pois estas eram dispostas para acesso por idades… A partir daí… sentia-me quase como dono… daquelas filas de livros… sobretudo das de cima… a que só os “grandes” e mais velhos tinham acesso… era o Mundo a abrir-me as portas…


O meu muito obrigado, à Biblioteca Itinerante de Miranda...

Mário Direitinho Santiago
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Interessante esta biblioteca

Eu aposto na vida mesmo diante do
maior problema, porque descobri que cada novo
dia é uma folha em branco, onde posso escrever
o que quiser, criar e viver o presente que rabisco
com tintas coloridas, que chamo de Esperança!

Beijinhos (Princesa)
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Amigo José.
Estive durante alguns anos ligados a essas bibliotecas como Funcionário da Fundação Gulbenkian. Tenho grande conhecimento, até que ponto elas eram importantes para as populações do interior. Lisboa não sabe o que é interior ou não quer saber. Também é verdade que quando foram extintas, foram oferecidas às Câmaras e algumas recusaram. Oferecidas com o carro, livros e apoios vários. Só era preciso um funcionário.

E assim se está fazendo o Portugal de Abril. Mas vejo que nem tudo é mau.

Agora um aparte: estive para ir para Miranda do Corvo, para essa Biblioteca Itinerante, antes de serem todas extintas.

Um abraço
Victor Gil
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Só agora, e por mero acaso, encontrei este blogue. O curioso da situação é que sou o responsável pela Biblioteca Itinerante de Miranda do Corvo (hoje na Fundação ADFP). Já Passaram 30 anos desde o dia em que comecei a trabalhar nesta Biblioteca (então ainda na Gulbenkian) e mais de 40 desde que a comecei a frequentar como leitor. A ela devo muito do que aprendi, quer através dos seus livros, quer através dos milhares de leitores que conheci e que tanto me tem ensinado. No próximo dia 19 de Maio vamos inaugurar um novo Bibliomóvel que permite o acesso às novas tecnologias e a possibilidade de ser frequentada por pessoas com mobilidade reduzida. Terei todo o prazer de vos fazer chegar fotos e outros elementos sobre a nossa Biblioteca. Podem contactar-me através do mail departamentocultural@adfp.pt ou telemóvel 918714606

Carlos Marta Ferreira. (atual encarregado da Biblioteca)




terça-feira, 7 de outubro de 2014

A LENDA DOS FERREIROS DE PENELA

O cume do monte Gerumelo. Ao fundo a elevação cónica de Germanelo.

Perto de Penela existem dois montes que distam entre si cerca de dois quilómetros. São os montes Melo, a norte e Gerumelo, a sul. Num desses montes, o Melo, existe um castelo que foi erguido por D. Afonso Henriques em 1142 e que se encontra quase todo destruído. As atuais muralhas, ameadas, foram parcialmente reconstruídas no troço norte, séculos mais tarde, seguindo o traçado original, pelo seu proprietário, o historiador de Penela, Professor Salvador Dias Arnaut (1913-1995).

Diz uma lenda muito antiga que nesses montes habitaram dois irmãos, ferreiros de ofício. Esses irmãos eram gigantes e tinham o mesmo nome dos montes em que se haviam instalado. Cada um em seu monte e com a sua forja exercia a sua profissão, mas, segundo a lenda, não possuíam mais do que um martelo e dele se serviam alternadamente. Quando o Gerumelo precisava do martelo, chegava à porta da forja e gritava ao Melo, para este lho atirar, e vice-versa. Isto repetia-se de todas as vezes que trabalhavam. Só a força de gigantes podia arremessar o martelo, a tão grande distância.

Ora, aconteceu que um dia o Gerumelo se zangou com o irmão e, quando este lhe pediu o martelo, arremessou-lho com tamanha violência e mau humor que ele se desencabou no ar. A maça de ferro foi cair no sopé do monte Melo e logo ali rebentou uma fonte de água férrea — a fonte da Ferratosa (atual Fartosa) Quanto ao cabo, que era de madeira de zambujo, precipitou-se mais longe, enraizou e deu origem a um bosque de zambujeiros, onde posteriormente se veio a formar a aldeia que tem, hoje, o nome de Zambujal.

É verdade que esta lenda é muito conhecida, assim como o monte onde habitou o irmão Melo e onde se encontra o castelo, assim como o que dizem ser as ruínas da forja do ferreiro gigante. Mas, a verdade também é que sobre o monte Gerumelo pouco ou nada se sabe. Desse monte apenas se encontram, na Internet, fotografias captadas muito ao longe, o que pode querer dizer que a lenda não faz despertar o interesse pelas pesquisas no local ou, talvez, esse desinteresse se deva às dificuldades do percurso para chegar ao cimo do monte.

Movido pela curiosidade de saber exatamente como é o monte Gerumelo e o que possa existir no cume decidi partir à aventura e fazer a escalada do monte. - Talvez encontre por lá alguns restos da forja ou da bigorna do Gerumelo; o martelo não vou encontrar de certeza, pois esse ficou soterrado no sopé do monte Melo - pensei, lembrando-me da lenda.

A aldeia de Casas Novas, no sopé do monte. Curiosamente esta aldeia pertence ao concelho de Soure,
 apesar de distar de Penela apenas uma escassa meia dúzia de quilómetros.

Depois de algum tempo a procurar um acesso ao monte que me desse alguma segurança pois era dia de caça e na zona ouviam-se com frequência disparos de caçadeira e, como não queria ser confundido com nenhuma peça de caça, iniciei a subida do monte pela sua vertente leste, depois de ter atravessado a aldeia de Casas Novas e ter seguido durante algumas centenas de metros por uma estrada de pedra e depois por um estreito trilho que seguia quase em linha reta em direcção ao topo. Trata-se de uma subida muito íngreme e, por vezes, tive que me desviar do trilho, por se tornar mais fácil a escalada fora desse mesmo trilho.

Esse caminho deve ser, muito provavelmente, utilizado por praticantes de descida em BTT, pois não nos parece possível a subida do monte por qualquer tipo de veículo. Só a pé e mesmo assim com muitas dificuldades.

Quando cheguei ao cimo verifiquei, com alguma desilusão, que excetuando um marco geodésico, não existe mais nada que indicie ter havido por ali alguma actividade humana. Apenas talvez, uns socalcos ou leirões que circundam a vertente oeste, possam ter sido feitos por mão humana para o cultivo de alguma coisa, em tempos remotos. Dada a pobreza dos solos ao redor do monte, fui levado a inclinar-me para essa hipótese, apesar da acentuada inclinação do terreno. Esta elevação termina em cone quase absoluto, ao contrário do monte Germanelo, que tem no seu topo um pequeno planalto, onde se situa o castelo, que talvez tenha sido feito por mãos humanas, aquando da construção do mesmo.

Outra diferença bem visível entre os dois montes é a sua flora. Enquanto no monte Gerumelo quase não existem árvores e a sua vegetação é rasteira, no Germanelo esta é mais abundante, existindo também muitas árvores. Em comum estes dois montes têm, além da lenda que os une, também a magnifica paisagem que do seu alto oferecem sobre o amplo vale do Rabaçal sendo, na minha opinião, lamentável o facto de não ter acessos ao seu topo um pouco melhores, pois se os tivesse certamente teria a visita de muitas pessoas, pois trata-se de um percurso muito bonito, que atrairia pessoas que gostam de praticar exercício físico em contacto com a natureza e certamente a lenda do gigante Gerumelo ajudaria a trazer as pessoas até cá acima. O monte Melo antes do arranjo dos seus caminhos era também pouco visitado, mas hoje já atrai muitas pessoas que vão conhecendo a história do castelo e a lenda dos dois irmãos ferreiros.

Encontrava-me nestas cogitações quando o monte começou a ficar envolto num ténue manto de nevoeiro. Cansado pela subida sentei-me no pequeno rebordo circular do marco geodésico e, deixando-me envolver pela quietude e silêncio do local, fechei os olhos e encostei a cabeça à parte cónica do marco, meditando sobre a história do local.

De repente estremeci, parecendo-me ouvir vindo das entranhas da terra, o som de um maço a bater em ferro. Pensando que era uma ilusão, ou que talvez se tratasse do chocalho de alguma ovelha tresmalhada que andasse a vaguear nas proximidades, recostei-me novamente para retemperar as forças para a descida do monte.
Passados alguns minutos, fiquei novamente alerta, pois, vinda das nuvens, escutei uma voz que gritava:

- Gerumelo! Gerumelo! Atira para cá o malho, Gerumeeeee...looo!!!...

Então a terra estremeceu e, vindo das entranhas do monte, ouvi o vozeirão do Gerumelo:

- Já vai, mano, já vai, espera só um pouco…

De novo escuto o barulho característico do malho a bater em ferro e, decorridos alguns minutos, outra vez a voz do Gerumelo:

- Aí vai o malho, mano!... Aí vai eleeee!!! …

Nesse momento senti uma ligeira brisa agitando o monte e de seguida escutei um silvo rasgando os ares e outra vez a voz do gigante Melo, trazida pelo nevoeiro:

- Obrigado, Gerumelo! Quando precisares dele, avisa para cá!

O silêncio voltou a reinar naquelas paragens e então abri os olhos e vi que o nevoeiro já tinha desaparecido, restando apenas algumas brumas envolvendo e parecendo tornar ainda mais misterioso o castelo no outro monte.

A vertente norte do monte. É a zona de melhor acesso ao cume.

Iniciei a descida pela vertente norte e, apesar de por ali a inclinação ser menos acentuada, era também impossível a subida por outro meio que não fosse o uso das pernas, mas de qualquer modo o acesso pareceu-me muito mais fácil, apesar de em alguns pontos a inclinação ser bem grande.

Quando cheguei à base do monte encontrei uma estrada em terra batida, mas em bom estado e, virando à esquerda, cheguei em poucos minutos à localidade de Tamazinhos, uma aldeia semi-abandonada, onde passou outrora a Estrada de Coimbra, uma via romana que ligava Coimbra a Santarém.

Menos de um quilómetro percorrido e eis-nos a entrar na aldeia da Ferratosa, a atual Fartosa; povoação que ficou ligada à lenda dos germanelos, devido à nascente de água férrea que ali brotou com queda do malho do Gerumelo.

Aldeia da Fartosa.

Do livro "Penela - História e Arte, de Salvador Dias Arnaut, transcrevo o seguinte trecho, relacionado à aldeia da Fartosa:

A primeira referência conhecida à Fartosa é de 1160: fala-se da foz de água de Ferratosa (ribeiro da Fartosa) no rio Ulmar (o “Carálio”). Em 1174 menciona-se a fonte da Ferratosa, que se supõe ser mesmo a fonte da Fartosa, que fica em lugar umbroso, à beira do ribeiro.

O nome da aldeia vem de “ferro”. A fonte é de água férrea. Se não fosse a fonte, decerto a Fartosa nem teria nascido. A lenda dos ferreiros Melo e Gerumelo é uma explicação para a maravilha de uma nascente, para mais de água férrea, naquele descampado calcário…


Continuei a viagem em direção ao Rabaçal…

sábado, 27 de setembro de 2014

BATALHA DO BUÇACO FOI HÁ 204 ANOS

Militares depositam uma coroa de flores junto ao Monumento.

Hoje, 27 de Setembro de 2014, passam 204 anos sobre a Batalha que ocorreu na serra do Buçaco e em que se defrontaram as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, visconde Wellington e as tropas francesas lideradas pelo Marechal André Massena.

Todos os anos, no dia 27 de Setembro, o exército português promove uma cerimónia militar e religiosa no local onde foi erigido um monumento em homenagem às tropas anglo-lusas. Nas comemorações de hoje participaram forças do Regimento de Infantaria 14 (Viseu) da Brigada de Intervenção, Fanfarra do Exército, Guarda Nacional Republicana e Associação Napoleónica Portuguesa. As cerimónias iniciaram-se pelas 09h00 com o hastear das Bandeiras Nacionais de Portugal, Reino Unido e França e, após a receção dos convidados às 09h30, seguiu-se um Cortejo Histórico Religioso, Missa Campal e Cerimónia de Homenagem aos Mortos.

Todos os anos se realizam aqui cerimónias religiosas e militares, que
incluem uma missa campal.

Como foi dito por um orador durante as cerimónias, o exército não se cansa de ir ali todos os anos realizar aquelas cerimónias, não só para homenagear todos os homens e mulheres que participaram naquele acontecimento, que marcou a região e o país, mas também para manter viva a sua memória e inclusivamente prestar um serviço didático à população, sobretudo aos mais jovens.

A Guerra Peninsular foi uma desgraça para o país. Naquela época Portugal tinha apenas 3 milhões e meio de habitantes e só nesta guerra perderam a vida 200 mil pessoas. As invasões francesas foram causadas por motivos políticos, mas, como acontece sempre, é o povo quem mais sofre.

Miranda do Corvo também sofreu muito com esta guerra. O concelho foi duramente afetado pelas tropas francesas, na primavera de 1811, quando estas batiam em retirada e se encontravam muito desorganizadas. As pilhagens eram uma constante e há mesmo quem afirme que Massena terá mandado incendiar a vila. Não se conhece o número exato de vítimas, mas, no concelho de Miranda do Corvo, em 1931, a partir do registo paroquial de óbitos, Belisário Pimenta contabilizou 728 mortos entre Março e Julho de 1811, sendo que o número médio dos 4 anos anteriores fora apenas de 1724.



Vídeo sobre a Batalha do Buçaco, realizado durante as comemorações dos 200 anos do acontecimento.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

AS PONTES DE MADEIRA SOBRE O RIO MONDEGO

No artigo anterior falámos sobre duas pequenas pontes de madeira que existiram no rio Dueça e que eram utilizadas por um número reduzido de pessoas. Voltamos ao assunto, agora para falar sobre as antigas pontes de madeira de Coimbra, que no século passado eram um elo de ligação entre as duas margens do Mondego, com alguma importância, na época. 

As pontes de madeira que atravessavam o rio Mondego, na zona de Coimbra, fazem parte do imaginário da cidade e de um rio que no verão deixava parte do areal a descoberto. Esse carácter estival do rio, que contrastava com fúrias súbitas no inverno, originou a alcunha de “Basófias” e inspirou a criação de poemas, como esta quadra de António Nobre.

Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua água,
Qu'é dos prantos que eu chorei?

AS ANTIGAS PONTES DE MADEIRA NA QUINTA DA PAIVA


As duas antigas pontes de madeira na Quinta da Paiva. Ao fundo avista-se
 o moinho de água que nesta altura se encontrava em ruínas.

Há uma dezena de anos atrás as duas margens do rio Dueça, na Quinta da Paiva em Miranda do Corvo, eram ligadas por duas pontes de madeira, separadas apenas por dois ou três metros. A ponte mais larga era para uso exclusivo dos proprietários da Quinta que, apesar de existir uma serventia pública que atravessava os seus terrenos, não permitiam que os habitantes das aldeias vizinhas se servissem da sua ponte. Estas pessoas tinham necessidade de atravessar o rio para se dirigirem aos pinhais em busca de lenha ou outros produtos florestais, que transportavam aos ombros ou às costas e, para isso, construíram a sua própria travessia que era denominada a “ponte do povo”.

domingo, 21 de setembro de 2014

GONDRAMAZ, ALDEIA DE XISTO

O cimo da aldeia.
Num artigo anterior deste blog, com o título “Aldeias abandonadas na serra da Lousã”, escrevi sobre o Cadaval, uma pequena aldeia situada na vertente oeste de uma das muitas montanhas da serra. Para essa aldeia, cujas casas se encontram na sua maioria completamente arruinadas, existem projetos de recuperação que se forem concretizados poderão fazer renascer a aldeia, trazendo vida aquela zona da serra, tal como acontece não muito longe dali, a apenas pouco mais de um quilómetro de distância, na aldeia do Gondramaz, povoação que sendo vizinha do Cadaval e pertencendo ao mesmo concelho, a configuração do relevo montanhoso do local faz com que se encontrem bastante afastadas fisicamente, pois o Gondramaz situa-se numa encosta voltada para o lado oposto e de onde se avista uma linha de cumeada de outra montanha onde se alinham várias torres eólicas, que fazem parte do primeiro parque que foi instalado na serra: o parque eólico de Vila Nova.

ALDEIAS ABANDONADAS NA SERRA DA LOUSÃ



Cadaval Cimeiro.
Na vertente oeste de uma das muitas montanhas da serra da Lousã, dentro do perímetro geográfico do concelho de Miranda do Corvo, há uma aldeia abandonada, ou melhor duas, uma vez que a cerca de um quilómetro de distância da primeira que se avista, se encontra uma outra aldeia, bem mais pequena. Estas duas antigas povoações têm o mesmo nome: Cadaval, atribuindo-se lhes para as distinguir os “apelidos” de Cimeiro e Fundeiro, uma vez que se situam na encosta a cotas de altitude diferentes, o que não é caso raro e também acontece com muitas outras aldeias situadas em zonas serranas. 

AS FÁBRICAS DE TELHA DE MIRANDA E LOUSÃ

Depois do artigo que escrevemos sobre os antigos fornos da telha do Vale Feijão, voltamos ao assunto, vindo falar agora das cerâmicas de Miranda e também da Lousã que durante algum tempo fabricaram telhas do tipo marselha. Todas elas já encerraram as portas há muitos anos, mas ainda se encontram em alguns telhados peças por elas fabricadas.



Telhas fabricadas em Miranda.

OS FORNOS DE TELHA DO VALE FEIJÃO

Telhas serranas produzidas no Vale Feijão
Miranda do Corvo tem uma grande tradição na arte de trabalhar o barro. A origem da olaria é muito remota, porém sabe-se que ela teve um grande incremento nos séculos XVI e XVII e todos têm conhecimento de que essa arte continua a fazer parte do quotidiano mirandense, focada principalmente na aldeia do Carapinhal.

No concelho para além da olaria, existem, ou melhor dizendo, existiram também várias fábricas ligadas à industria do barro para confeção de púcaros para a resina dos pinheiros, que fecharam há muito tempo, talvez quando começaram a aparecer as púcaras feitas de plástico. De desaparecimento mais recente foram as fábricas de produção de tijolo e tijoleira para a construção civil. Estas eram várias e quase todas elas encerraram possivelmente devido ao facto de se terem tornado obsoletas, no entanto, uma delas encerrou devido à crise que se instalou na construção civil de há uns anos a esta parte, pois tratava-se de uma fábrica de construção recente, que utilizava processos modernos de fabrico.

A ORIGEM DO NOME DA VILA DE MIRANDA DO CORVO

Brasão de Armas de Miranda do Corvo
O brasão de armas do concelho de Miranda do Corvo,
baseia-se na lenda da donzela cativa na torre do castelo.
As estrelas de oito pontas significam vitórias contra os
mouros, causa essencial da fundação do castelo.
Uma donzela apaixonada por um cavaleiro doutra raça e religião, ao ver de dentro do castelo, numa encosta próxima, o seu amado em êxtase perante a sua beleza, assomou a uma fresta ou janelão e gritou-lhe: “mira e anda!”, para que as sentinelas não dessem sinal de inimigo à vista.

Hoje, muitos mirandenses acreditam que pode estar nessas palavras de aviso da donzela para o seu amado a origem do nome “Miranda”. No entanto, em bom rigor filológico, o nome da terra poderá vir do latim mirandus, que significa miradouro ou atalaia, o que, na verdade, corresponde à primitiva função do monte onde foi construído o aglomerado militar, ao redor do qual depois se desenvolveram as construções civis.

O certo é que a lenda romanesca da donzela sobreviveu a quaisquer outros motivos ou sucessos que poderiam impressionar as imaginações e veio a ser oficialmente legalizada, tendo vindo a constituir o motivo central do selo e do escudo de armas.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A TORRE SINEIRA DE MIRANDA DO CORVO


A "nova" torre sineira.

A torre do antigo castelo de Miranda do Corvo foi, recentemente, alvo de obras que lhe alteraram profundamente a aparência visual. Desapareceram as ameias que lhe davam um aspeto medieval, fazendo lembrar um pouco que ali existiu um castelo que fez parte da linha defensiva do Mondego.

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