No
artigo anterior falámos sobre duas pequenas pontes de madeira que existiram no
rio Dueça e que eram utilizadas por um número reduzido de pessoas. Voltamos ao
assunto, agora para falar sobre as antigas pontes de madeira de Coimbra, que no
século passado eram um elo de ligação entre as duas margens do Mondego, com
alguma importância, na época.
As
pontes de madeira que atravessavam o rio Mondego, na zona de Coimbra, fazem
parte do imaginário da cidade e de um rio que no verão deixava parte do areal a
descoberto. Esse carácter estival do rio, que contrastava com fúrias súbitas no
inverno, originou a alcunha de “Basófias” e inspirou a criação de poemas, como
esta quadra de António Nobre.
Vou
encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua água,
Qu'é dos prantos que eu chorei?
O
fraco caudal do rio no verão permitia o seu atravessamento em toscas pontes de
madeira, por pessoas que tinham necessidade de se deslocarem de uma margem para
outra, numa altura em que o automóvel ainda era uma coisa muito rara, sendo
preciso encurtar distâncias. Eram por isso utilizadas por imensa gente, que o
fazia por diversos motivos.
Existiam
várias pontes deste género na zona da cidade, mas uma das mais movimentadas era
conhecida pela ponte do Modesto, uma estrutura rudimentar que se situava a
cerca de uma centena de metros a montante do local onde foi construído o
Açude-Ponte.
Recordo-me perfeitamente dessa estreita ponte de madeira,
que tinha apenas um corrimão e que ia das proximidades do local onde foi
implantado o edifício da Segurança Social, até à zona do Almegue. Nos anos de
1965/66, tinha então dez anos, passei sobre ela muitas vezes para me dirigir à
Quinta do Almegue, onde ia buscar leite para a Casa de Saúde da rua da Sofia,
onde então trabalhava.
Fazia diariamente esse trajeto, que está muito vivo na minha
memória, porque certo dia se passou comigo um episódio algo insólito e curioso,
que ainda hoje recordo com muita nostalgia.
Munido de dois garrafões de cinco litros e com uma sanduíche
no bolso, que as “irmãzinhas” (as freiras da Casa de Saúde) faziam questão de
me arranjar para comer pelo caminho, iniciava o trajecto que, avaliando bem os
riscos, vejo agora que era um trajecto algo perigoso para uma criança de dez
anos. Para chegar à Quinta do Almegue tinha de atravessar o Rio Mondego, mas,
como pela ponte de Santa Clara a distância era muito maior, utilizava essa
ponte de madeira que tinha apenas cerca de um metro de largura e era utilizada
exclusivamente por peões. Para a atravessar era necessário pagar 20 centavos,
ou dois tostões, como então se dizia.
Ora, um belo dia, quando atravessava a dita ponte, resolvi
parar a meio dela, pousando os garrafões ao meu lado. Acontece que nesse dia
uma senhora, com uma cesta à cabeça, seguia apressada pela ponte fora na mesma
direcção em que eu ia. Quando passou por mim, devido à pressa que levava,
embateu ao de leve num dos garrafões e este caiu ao rio! Desesperado, com medo
das consequências pela perda da vasilha, comecei a chorar e a dizer à senhora
que tinha de me pagar o garrafão. O “barqueiro”, como era conhecido o homem que
tomava conta da ponte e que cobrava as portagens, apercebendo-se do sucedido e
da minha aflição, imediatamente saltou para cima de um bote de madeira que
estava ancorado junto da ponte. Esta embarcação era impulsionada com a força
que o barqueiro aplicava a uma vara que era apontada de encontro ao leito do
rio e, foi assim, manobrando a embarcação com destreza, que alcançou o
garrafão, tendo-o trazido de volta. Ainda teve de percorrer uma grande
distância porque a corrente era bastante forte. Felizmente isto aconteceu na
ida para a quinta e os garrafões encontravam-se vazios.
Ainda sobre esta ponte do Modesto, recebi, nos comentários
de um artigo sobre estas pontes que publiquei no blog “Candeia Verde, um
importante testemunho de um antigo utente desta ponte, que aqui reproduzo:
Gostei da abordagem
feita sobre as antigas pontes de madeira que, sobretudo na época de Verão,
atravessavam o Mondego e que ficavam localizadas em frente de alguns cais que,
ainda hoje, se encontram edificados na margem direita. Lembro-me,
particularmente, da ponte do "Modesto", situada em frente ao cais que
dava acesso ao lugar da Guarda Inglesa, onde sempre vivi. Por isso a atravessei
milhentas vezes no tempo de estio, porque no período invernoso, a travessia era
feita de barco, face ao volumoso caudal de água, que não raras vezes galgava as
suas margens, inundando os férteis campos de milho e laranjais então existentes.
A figura típica do "Modesto", o Ti Manuel de seu nome verdadeiro, era um homem de estatura baixa, mas de rija têmpera, com residência fixa na Guarda Inglesa, mas que no período de Verão se instalava com a família numa barraca de madeira junto à antiga feira dos 23, na margem esquerda. Ali guardava todos os seus utensílios, entre os quais o barco que utilizava, ao serviço das pessoas, no período de Inverno, na travessia entre as duas margens, cobrando-se, naturalmente, desse serviço. Ali tinha também as redes com as quais pescava os belos barbos e bogas então existentes. O "Modesto" tinha ao seu serviço, neste período invernoso, um indivíduo que tinha a particularidade de ter sido amputado de um braço e por isso ser conhecido como o "Maneta". Este facto não o impedia de manejar o barco, servindo-se do único braço que possuía e do seu ombro para empurrar a vara que utilizava na condução.
Recordo pessoalmente com saudade essa
ponte, pois era o percurso que quase todos nós utilizávamos, sobretudo os que
pretendiam aceder à Baixa da cidade (Rua das Solas - atualmente Rua Adelino
Veiga, Rua das Padeiras, etc.), por ser muito mais perto do que utilizar a
Ponte de Santa Clara, para nós muito mais distante.
No Verão o rio apresentava um aspeto
totalmente contrastante, pois apenas passava um pequeno fio de água (por isso
ficou sendo conhecido por "Basófias), que as lavadeiras aproveitavam para
lavar as suas roupas de casa ou até mesmo as de algumas Instituições do
Exército sedeadas em Santa Clara (Regimento de Artilharia Ligeira nº 2 e
C.I.C.A. 4), trabalho que era feito pela Ti "Maria do Albano", também
residente na Guarda Inglesa. Os inúmeros lençóis eram lavados nas pedras que
cada lavadeira possuía e, de seguida, ficavam a corar e a secar nos extensos
areais então existentes. Aos fins de semana, sobretudo no período das festas da
Rainha Santa, era frequente algumas famílias fazerem no areal barracas
construídas com canas e respetivas coberturas, ali dormindo durante a noite.
Que jeito que davam durante as noites do fogo de artifício, pois tinham dele
uma visão magnífica, apesar do inconveniente da queda dos correspondentes
caniços, que no dia seguinte eram apanhados pela rapaziada de perto.
A. Carvalho
Das antigas pontes de madeira do Mondego, há, infelizmente,
uma que ficou na história pelos piores motivos. Esta ponte situava-se em Pé de
Cão, na zona de S. João do Campo e, no último dia de 1978, protagonizou uma
desgraça, quando cedeu ao volumoso caudal de água do rio, arrastando com ela
cinco homens que a atravessavam, tendo apenas um conseguido sobreviver. Este
acontecimento ficou conhecido na zona como a “Tragédia do Mondego”.
Penso que destas travessias rudimentares, já poucas deverão
existir e a última a desaparecer na zona de Coimbra, terá sido a ponte pedonal
da praia fluvial de Palheiros e Zorro, na freguesia de Torres do Mondego, que
foi montada a título provisório para que as pessoas vindas da margem direita do
rio chegassem ao areal da praia. Esta ponte foi substituída por uma outra,
igualmente apenas para peões e construída também em madeira, mas de uma forma
menos tosca e aparentemente mais segura.
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| A antiga ponte de madeira da praia fluvial de Palheiros/Zorro. |
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| A mesma ponte enfrentando uma cheia no rio. |
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| A nova ponte da praia fluvial de Palheiros/Zorro. Esta é menos tosca e possivelmente mais segura continuando, contudo, a manter a tradição da existência de pontes de madeira no Mondego. |
Apelamos aos leitores que, porventura, tenham sido utentes
destas pontes e que tenham alguma história sobre elas para contar e que a
queiram partilhar, a escrevam nos comentários deste artigo ou, em alternativa a
enviem para o email: joalexhenriques@gmail.com.
Desde já os agradecimentos do autor deste blog.

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